domingo, 30 de março de 2014

Luta contra a corrupção ou demagogia? Eis a questão.

Mais um ato de hipocrisia vem circulando nas redes sociais, divulgado pelo poder judiciário. Um cartaz com advertências que, aparentemente, pretende estimular as pessoas a não fazerem pequenos atos de corrupção, mas que com uma análise mais detalhada é possível refletir sobre diversos aspectos que estão imbricados nesta publicação.

Entre as três primeiras advertências de “não a corrupção” consta atos como: não apresentar atestado médico falso; não tentar subornar guardas para evitar multas; não comprar objetos falsificados. Isso é ótimo e deveria mesmo ser incentivado! Mas considerei um ato hipócrita, pois só seria um fato digno e com o verdadeiro intuito de fomentar a “não corrupção”, se viesse com as devidas reciprocas. Em contra-partida: médicos, não vendam atestados; guardas, não negociem subornos; polícia federal, faça seu trabalho, pare de fechar os olhos ou encher os bolsos de propina, para que o país não fique entulhado de falsificados, que às vezes compramos até inocentemente.
 
Porque não despertar a atenção para os dois lados, visto que tudo isto é crime também. Claro que não existe ato de corrupção se as pessoas não se permitirem corromper por dinheiro. Esse deveria ser o primeiro item a ser colocado em um cartaz que não fosse pura demagogia. Evidente que se não se considera ato ilícito os dois lados da moeda, está havendo uma manifestação hipócrita de falsa honradez.
 
Mais dois aspectos tratados no cartaz dizem respeito a não bater cartão de ponto pelo colega de trabalho e não colar na prova. Falar em cartão de ponto é de doer! Isso seria corrupção? Bater o ponto por um amigo, provavelmente pobre, peão (porque rico e nobre não bate cartão, nem sequer respeita carga horária). E este talvez tenha se atrasado por ser vítima do péssimo sistema de transporte oferecido ao pobre. Mas com certeza as suas dificuldades e justificativas não são compreendidas pelo "senhor de engenho", vulgo patrão. Agora mangangões, políticos, chefões, a elite da corrupção e todo alto escalão, não bate ponto, não presta conta de suas ausências, nem seguem o horário rígido do peão, isso quando efetivamente trabalham. Mas são esses os que ganham muito bem, além do que, são quem mais roubam, corrompem o sistema e destroem a dignidade do brasileiro assalariado.

Questiono também: qual o problema de pescar na prova? Se nos dão um monte de conteúdo que ninguém sabe onde e como usar, para que e porquê, ou se o sistema de ensino retrógrado, que não forma para a vida e que ainda não aprendeu a dar significado ao que ensina, quer que se grave / memorize as fórmulas, que nem mesmo sabe para que serve. Para mim pouca diferença há entre pesca e memorização mecânica, em nenhum dos casos houve aprendizado! Nem mesmo sou a favor da prova (especialmente, como recurso principal de avaliação), até o nome prova é incômodo! Existem tantas outras formas de avaliar, muito mais dinâmicas e criativas, que leva o aluno a pensar, interagir, criar e participar do processo, tendo acesso ao material não como ‘pesca’, mas como fonte de pesquisa.

Enfim, quando fala em não roubar a TV a cabo e falsificar carteirinha de estudante, nisto concordo plenamente, mas, ao mesmo tempo, considero os mais desnecessários de estarem aqui presente. Sou terminantemente contra a TV a cabo, internet paga, sites proprietários, sou militante do ideal de liberdade das redes, do livre acesso a comunicação, informação e entretenimento. Por que TV a cabo paga? TV sempre foi a diversão do brasileiro, uma das poucas coisas que os pobres e menos favorecidos tinham acesso sem pagar. Agora coloca TV paga, com isso privilegia com uma rica programação, quem por natureza já é privilegiado, e para os menos favorecidos ficam os restos e a  falta de opção de um conteúdo de qualidade.

Com relação a carteirinha de estudante - em um país que tem lutado incessantemente nos últimos dois anos por um transporte gratuito e de qualidade, apresentar este item não é só demagogia, é uma verdadeira afronta as demandas das lutas sociais.

A partir da análise destes pontos é possível considerar que suscitar uma discussão com relação a estes pequenos atos de corrupção, pode ter realmente cunho político, talvez para em ano de eleição tirar o nosso foco de fatos tão mais relevantes. Sim, nesse tempo devemos nos preocupar com coisas mais importantes, como políticos só se eleger se "realmente" for ficha limpa (pois é só ir para a "justiça" e conseguir uma liminar para, com toda a “sujeira da ficha”, assumir cargo), sem contar na dedicação da justiça com os embargos precatórios, que considerou inocentes aqueles que a menos de um ano tinham sido considerados culpados. Tudo isso em público e televisionado.
 
Mediocridade querer considerar coisas pequenas (com o próprio cartaz esclarece) como corrupção, enquanto a justiça vive agindo injustamente e criando um ideário de impunidade, por crimes tão hediondos que violam os direitos, a integridade e a vida das pessoas. Vejam o caso da onda de violência contra a mulher. Por que neste cartaz não se colocou: homens não assediem ou molestem mulheres no transporte público? Talvez por ser essa uma demanda que necessitaria mais que um cartaz rico de hipocrisia, mas uma ação concreta de conscientização e punição.

Se continuar assim daqui a pouco estaremos a favor de uma justiça maldita, que condena quem rouba uma galinha por passar fome, mas deixa livre ou em prisão domiciliar (custando uma fortuna para o país e disfrutando de todas as benesses adquiridas com o dinheiro roubado), a quem rouba bilhões do INSS, participa de mensalões e tantos outros escândalos de corrupção passiva que formaria uma lista imensa.

É complicado mesmo! Merece atenção e debate. É evidente que não sou a favor de nenhum ato ilícito ou de corrupção, mas sinto que com estas prerrogativas apregoadas e disseminadas, deseja-se ocupar nossa atenção com o mínimo corriqueiro, para não darmos a devida atenção ao grande buraco de corrupção que assola o país. Isso que nem falamos da Petrobrás... Podem ser cenas para outros capítulos, por enquanto acho que basta. Com certa preocupação, Cássia.
 
 
Como sempre ocorre no Brasil é preciso reflexão
para compreender as entrelinhas até da pseuda
luta contra da corrupção,
e não advogar por coisas e causas sem sentido,
sem nexo, e que por vezes pode nos tirar do foco
das lutas que realmente fazem sentido e podem
gerar mudanças concretas na sociedade. Cássia.
 
 
 

sábado, 15 de março de 2014

Cansei de falar de novela, prefiro falar de flores

Não consigo entender como as pessoas conseguem tão facilmente se "viciar" em uma novela. São quatro por dia no canal top, além das outras nos outros canais. As pessoas acompanham pela tele, leem nas revistas, veem na internet, querem saber tudo o que vai acontecer. Uma curiosidade mórbida, quase insaciável, por algo que nem é verdade, uma farsa, uma ficção alimentada e retroalimentada pelo imaginário das pessoas, que talvez não tenham algo a mais a que dedicar efetivamente as suas vidas.

Tomando posse desta rede de mentiras, intrigas e imoralidades, cotidianamente lançada nas suas mentes, elas criticam, murmuram, tomam partido, se revoltam, deixam seus afazeres para acompanhar os capítulos e não perder nada. Mas perder o que??? Acho que só o seu tempo!!! O que para mim é mais importante e escasso.

Perde-se tanto de convivência, troca de experiências, carinho e aconchego, fixando o olhar e o interesse em uma caixa de ilusões, que nada acrescenta e que tanto tira da vida de uma pessoa. Em certos ambientes (comumente chamados de lar, mas que não expressa mais a intensidade relacional que esta palavra designa), falar/dialogar no momento da novela é impossível, para não tirar a atenção do que será dito por aquele ser imagético, existente apenas na ficção. É o tempo em que a mentira ficcional se tornou mais importante que a verdadeira realidade da vida.

Parece que suas vidas é um pouco incipiente, que buscam os acontecimentos da vida de terceiros para movimentar o seu dia-a-dia. E o pior é que ainda perguntam: viu o que aconteceu com "helena"? Engravidou de não sei quem... e se decepcionam ou criticam quando você diz que não tem o menor a menor ideia ou interesse nisso. Parece uso de drogas, depois que si vicia tem que viciar mais alguém.

Definitivamente, NÃO! Não vi, não assisto, não sei, não tenho interesse em saber, em assistir, em acompanhar tamanha insensatez, muito menos me viciar nisso. Minha vida é tão rica em Igreja, religião, família, amizades, estudos, trabalho, desejos, sonhos e realizações... que não tenho porque divagar e me apegar a uma invenção de uma pseudorealidade, produzida por uma mente que só atua aficionada por dinheiro.

Tenho tanto para falar, para escutar, para escrever, para viajar, para me divertir, para cozinhar (amo receitinhas deliciosas e diferentes), enfim para AMAR, REZAR E VIVER, que não tenho tempo a perder com algo tão deprimente e desnecessário. Não desperdiço o meu tempo com coisas que para mim nada significa, nada produz, nada acrescenta, pois espero da vida mais, muito mais...

Assim, com certeza minha vida não será “uma novela”, pois aconselharia as pessoas a não perderem tanto tempo (horas, dias, meses) diante de uma televisão para assistir, por mais interessante, valorosa e significativa que seja a história de vida de uma pessoa.
- Prefiro que seja um livro. Leitura, momento delicioso! Frutifica a imaginação, desperta a criatividade, favorece a educação e a cultura.
- Ou um filme, algo muito mais criativo, dinâmico, emocionante e pontual. Ganha-se em tempo, esbanja-se em emoção, diversão e imaginação.

Enfim, mesmo não gostando respeito quem faz suas escolhas, e tenho o direito de fazer as minhas. Nesse caso, se é para falar de novela, esqueçam! Prefiro falar de flores, poesia, fé e amor. A respeito disso, bem como das coisas boas e belas da vida, tenho muito assunto e com riqueza de detalhes, se deseja essa aventura teremos muito sobre o que conversar. Com carinho, Cássia.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

As manifestações psicossomáticas e seu caráter multifacetado

Atualmente há uma relevância significativa em perceber que os fatores psicológicos são preponderantes no desenvolvimento de diversas patologias. Estes fatores podem afetar determinadas condições clínicas do sujeito – ligadas ao físico, fisiológico ou comportamental. O caráter psicológico pode estar ligado a transtornos de somatização, neste caso os sintomas físicos apresentados não tem relação com fatores orgânicos, que possam justificar a queixa, tendo origem psíquica. Mas, há também patologias organicamente diagnosticadas, mas para as quais os fatores psicológicos interferem na sua gênese, desenvolvimento, tratamento ou prognóstico1.

É interessante que a abordagem psicossomática é uma visão de mente e corpo em interação com o contexto e, desta forma, permite compreender, de maneira mais ampla, o caráter multifacetado destas manifestações. Favorece, também, uma intervenção terapêutica que seja mais abrangente, eficaz e significativa. Há vários transtornos específicos, caracterizados como psicossomático, mas os estudos científicos vêm demonstrando forte associação em três áreas de manifestação patológica – dermatológica, cardíaca e gástrica1/2.

Distúrbios psicossomáticos de pele:
A pele é um órgão de contato, relação e comunicação, que faz fronteira entre o mundo interno e externo, sendo canal de transmissão de sensações e emoções. A pele tem a capacidade de mostrar o estado interno dos órgãos, como também de comunicar processos e reações psíquicas, podendo refletir problemas emocionais.

Os problemas de pele têm um caráter diferenciado na sua manifestação, especialmente na cultura atual, que tem uma visão de alto padrão estético, fazendo com que os pacientes com sintomas dermatológicos se sintam socialmente inadequados, provocando insatisfação, dificuldade inter-relacional e isolamento social. Desta forma, as doenças dermatológicas, como ocorre com outras patologias, tanto podem ser consequência de fatores psíquicos/emocionais, quanto sua manifestação desencadeia ou agrava problemas emocionais, como condição de co-morbidade.

Atualmente, diversas doenças de pele são caracterizadas como psicodermatoses, como a psoríase, escoriação psicogênica, hiperidrose, dermatite atópica, dermatite seborreíca, entre outras. A psoríase é a psicodermatose mais estudada no campo cientifico. É uma doença crônica e intermitente, com etiologia multifatorial e de interação entre genética, fatores psíquicos e ambientais. É uma doença estigmatizante e de difícil tratamento, com impacto negativo para a qualidade de vida do sujeito. Esta patologia causa diversas restrições, com prejuízos, físicos, sociais e psíquicos de igual relevância, contribuindo para aumento dos níveis de frustração, favorecendo a baixa auto-estima, sintomas depressivos e dificuldade de manter a atividade laboral. A própria condição da doença eleva o nível de estresse, que favorece a exacerbação da sintomatologia manifesta, ao mesmo tempo em que, o estresse, a ansiedade e a depressão, são os principais fatores desencadeantes deste problema.

A condição de escoriação psicogênica é uma psicodermatose em que são desenvolvidas lesões de pele, provocadas pelo comportamento de coçar, lembrando o TOC por suas características - ritualística, repetitiva e redutora de tensão. Os pacientes tentam resistir ao desejo de coçar, mas sem sucesso, tornando o sujeito disfuncional.

Distúrbios psicossomáticos cardíacos:
É na Cardiologia que o estudo da psicologia acentua a sua importância. Ao interpretar um sintoma cardiológico é preciso não esquecer que muitos deles podem ser apenas demonstrações somáticas de conflitos emotivos. Inúmeros dos distúrbios apresentados como do coração, serão exacerbados ou aliviados, dependendo do estado e fatores que comprometem o psíquico.
 
Atualmente as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte. O desenvolvimento destas patologias pode estar associado a vários fatores de risco: comportamentais, como sedentarismo, tabagismo; clínicos, como hipertensão e diabetes; ou transtornos psíquicos, como ansiedade, estresse e depressão. O sistema cardíaco pode ser afetado por fatores psíquicos e sociais, já que seu funcionamento é sensível aos abalos no estado emocional do sujeito, ocasionando infartos ou podendo mesmo levar a morte súbita cardíaca, relacionada ao alto nível de sofrimento emocional.

Pesquisas sobre cardiologia psicossomática demonstram um padrão de comportamento específico, caracterizado como tipo A, que apresenta hostilidade como fator preponderante, urgência temporal e impaciência, tendo relação direta com o desenvolvimento de doenças coronarianas. É interessante que em mulheres uma postura submissa é fator de proteção contra o risco destas doenças. Isso lembra Chico Buarque, quando fala “naquelas mulheres de Atenas, submissas e dóceis, serenas...”. Será???!!!

Distúrbios psicossomáticos gástricos:
Todo sistema gastrointestinal é bem sensível às alterações do estado emocional, havendo forte ligação entre estresse, ansiedade e respostas fisiológicas gástricas. O nível de estresse elevado pode provocar várias reações, como aumentar o tônus do esôfago, levando a síndrome de espasmos esofágico, pode diminuir a atividade motora do estômago, provocando náuseas e vômito, também reduz a função motora do intestino delgado, aumentando a do intestino grosso, o que leva a apresentação de sintoma de cólon irritável. Grande parte dos pacientes que apresentam transtornos de ansiedade, alto nível de estresse, excitação excessiva ou depressão, também apresentam como co-morbidade alterações fisiológicas gástricas como gastrite, esofagite, úlcera péptica e colite ulcerativa.

Atualmente, no processo diagnóstico das doenças psicossomáticas, atenta-se para a avaliação tanto física quanto psicológica, para elucidar os fatores explícitos e implícitos implicados nestas manifestações, elucida-se também o contexto social/interacional do sujeito. A partir disso trabalha-se de forma mais integracional, não só prescrevendo medicamentos, mas indicando psicoterapias e conscientizando o sujeito para os padrões de comportamento prejudiciais, tanto em nível físico quanto psicológico/emocional, que podem levar a uma deterioração da qualidade de vida. 

Enfim, nesta edição procuramos elucidar algumas possibilidades de manifestações clínicas psicossomáticas, de forma reduzida é claro, já que todas as patologias têm um fator psíquico/social imbricado no seu processo. Falta agora trazer a evidência as possibilidades de tratamento, destacando as psicoterapias. Este será o próximo capítulo da nossa trajetória. Continue acompanhando e até a próxima! Com carinho, Cássia.

 

O vazio existencial, eis o grande fator de causa de distúrbios psicossomáticos. É preciso descobrir razão da própria existência, para reencontrar o prazer pela vida, e assim quebrar as amarras que impedem de vive-la plenamente. Cássia.
 


 
Referências no comentário 1.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Psicossomática: Histórico de um conceito atual

Voltei a minha prática semanal, postar. Mas agora eu posso escolher sobre o que escrever, então nada melhor que, com "educação", "psicologizar" um pouco este blog, afinal esta também é minha área. Assim, vou fazer uma trilogia (três semanas de post) sobre o tema psicossomática, que por ser muito abrangente e instigante tem muito para refletir. Este é o primeiro...
 
Psicossomática designa duas possibilidades em saúde: a medicina psicossomática como uma forma de atuação que busca ter uma visão integrada do sujeito, visando a interação mente e corpo; e os transtornos de caráter psicossomático, como uma condição patológica, que tem os fatores psicológicos como importantes na sua manifestação, afetando as condições físicas, fisiológicas ou comportamentais. Mas, o desenvolvimento deste conceito teve todo um percurso histórico, cujo conhecimento é importante para a sua melhor compreensão.

Conceitualmente, a expressão psicossomática remonta o séc. XIX, cunhada pelo psiquiatra Heinroth em 1818, designando a unidade funcional soma-psique, mas apresentando um caráter dualista, próprio da tradição cartesiana. Entretanto, historicamente a medicina nasce com uma visão unificadora. Desde Hipócrates já havia a consideração de três aspectos - relação entre a lesão corporal, estados psíquicos (ou da alma) e os fatores ambientais, tendo assim, um caráter psicossomático na sua origem. Esta corrente monista percebia o sujeito na sua totalidade, a doença como reação global e a terapêutica como forma de reestabelecer a harmonia do sujeito consigo e seu ambiente. Mas, com o tempo isso se modifica, a partir de Galeno e a corrente dualista, na qual o foco passa a ser a doença, e a terapêutica consistia em localizar o mal e extirpá-lo. Isso quando possível!
 
Era uma medicina reducionista, direcionada a doença, base da medicina convencional na atualidade, que percebe o sujeito em partes. A medicina psicossomática (termo apresentado por Felix Deutsch em 1922), surge no séc. XX, como uma nova proposta integradora e uma reação a esta perspectiva fragmentada. O que nos remete a fala do poeta, quando dizia que sempre vemos  “o futuro repetir o passado,... um museu de grandes novidades...”, mas o importante é que “...o tempo não pára!”3.

O conceito de psicossomática teve o seu desenvolvimento influenciado pelo advento e expansão da Psicanálise (mais uma vez, reforçando a máxima popular - Freud é que explica!!!), resgatando o termo e estruturando a sua funcionalidade, a partir de uma nova ótica dos fenômenos relacionados: as somatizações – componente manifesto, e os conteúdos psíquicos – componente latente, que é fator para a sua expressão, remetendo a origem inconsciente das doenças. Neste sentido, Freud traz uma nova perspectiva, mas, posteriormente, a ênfase dada pelos seguidores da psicanálise ao aspecto psicológico, acabou levando a um novo reducionismo, apresentando explicação psicológica para tudo em saúde.
 
Hoje, contudo, o sujeito é visto como uma unidade mais dinâmica, enfatizando a possibilidade de inter-relação entre três fatores – o biológico, o psicológico e também o social, para a gênese e manifestação de um quadro patológico, a inter-relação biopsicossocial é a visão psicossomática. O que está em consonância com a visão de saúde, segundo a OMS, de “um estado de completo bem-estar físico, mental, social e não apenas a ausência de doença”1.
 
A medicina psicossomática é apontada, então, como precedência do pensar e do fazer em saúde, tendo um caráter multidisciplinar e visando uma assistência integrada do sujeito. Entretanto, a supremacia da ordem biológica, ainda é evidente, especialmente pela dificuldade em considerar as dimensões psíquicas, implicadas numa manifestação patológica. Infere-se que isso ocorre, pelo fato de que, apesar de todo o processo de mudança de paradigma científico, nós talvez “...ainda sejamos os mesmos e vivamos (pensamos) como os nossos pais”2.
 
Entretanto, é preciso perceber que a prática clínica (médica/psicológica), não coloca o profissional de saúde em contato apenas com partes ou patologias, mas com um sujeito na sua integralidade - subjetividade, emoções e singularidade. Isso implica uma nova postura profissional, de atuar com fatos e dimensões objetivas e subjetivas de forma concomitante, em um encontro que possibilite, além da intervenção, a integração profissional/sujeito, para uma melhor compreensão clínica.
 
Infere-se, então, que para trabalhar com psicossomática é preciso ampliar o campo de visão, permitindo a integração de técnicas e saberes científicos, somando conhecimentos e ampliando os horizontes. Para tanto, deve-se implicar os profissionais que atuam na saúde, deixando de lado os resquícios que os separam, possibilitando uma hermenêutica no diálogo cientifico, que favoreça atuar de maneira mais holística.
 
Por fim, percebe-se que foi percorrido todo um caminho histórico, para o conceito de psicossomática adentrar o campo da saúde. Contudo, a psicossomática também, como já foi referido, diz respeito a transtornos específicos de cunho psíquico/emocional, que tem acometido uma série de pessoas no contexto atual. Há uma variedade de formas de doenças psicossomática (dermatológicos, gástricos, cardíacos, entre outros), além de várias possibilidades de tratamento, destacando as psicoterapias (e assim a importância e atuação do psicólogo neste contexto). Mas estas serão cenas para os próximos capítulos.... Aguardem!
 
Graça e paz!  Cássia.
 
 
Se vivemos em uma realidade que nos  atormenta, por suas pressões e exigências sociais, é preciso harmonizar a mente para não prejudicar o corpo, com tantas possibilidades de adoecimento que a contemporaneidade, no seu frenesi patologizante, infelizmente conseguiu nos "presentear". Cássia.

As referências estão no comentário 1.
 
 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Onde está a sua cabeça? E os seus dedinhos?

Esse título é para discutir o conteúdo de um livro formidável - refiro-me a Polegarzinha (referência abaixo). E que bom ter a oportunidade de uma leitura interessante, delicada e reflexiva nesta trajetória. Vale a pena saborear!

Entretanto, antes de começar a abordar sobre o texto, gostaria de fazer uma ressalva. Estava aguardando ansiosa (no sentido de anseio ou desejo, e não de ânsia ou mal estar/enjoo). Então seria literalmente anseiosa – esse será de fato o neologismo criado por mim, por ser mais adequado para o caso. Voltando! Como estava digitando, esperava desejosa por este momento, sabe por quê? Para mim Polegarzinha equivale a minha princesa Isabel, assinando a Lei Áurea, para que eu receba a minha alforria (em árabe al horria = a liberdade). Que alegria! “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre mim!”. Estamos, finalmente, chegando à conclusão desta árdua jornada semestral blogueira.

Não que fazer o blog tenha sido uma mortificação, claro que não chegou a tanto! Em verdade alguns foram bem interessantes e satisfatórios de serem feitos. Mas o que eu festejo é ter a liberdade de escolha, o livre arbítrio de cogitar – blogar ou não blogar, eis a questão, e assim ter o poder de decisão. Afinal, essa responsabilidade semanal nos deixa “gemendo e suando sob a vida fatigante” (HAMLET, III Ato). Também, que exagero! Tudo certo, que seja!

Bem, agora é hora de voltar ao foco, ou ao livro. Essa leitura prazerosa refere-se à afinidade da juventude com o uso das tecnologias digitais – digitando no celular com o polegar, e a relação desta nova geração com o mundo, o saber, a escola, o ensino.

O mundo sofreu significativas transformações, e a forma de ser e agir no mundo também. A geração contemporânea está alicerçada na cultura ressignificada por estas transformações, e a digital foi, sem dúvida, a mais instigante. Em meio a isso, o autor traz uma reflexão interessante sobre o papel do professor na transmissão do saber, em uma sociedade da tecnologia da informação, onde este saber está disponível em todo o lugar, presentificado, e pode ser acessado na Net, por exemplo, com apenas um click. O mundo do conhecimento está, literalmente, ao alcance das nossas mãos, basta clicar. É assim que funciona para @s polegarzinh@s.

Através de um celular “inteligente” (smart), o mundo se torna onipresente. Estudo, relações, diversão, comunicação etc., tudo pode ser feito, acessado, revelado, de maneira rápida e prática. E é nessa inteligência digital que se concentra os pensamentos, desejos, atitudes e atividades d@s polegarzinh@s. A cabeça está nas mãos e o poder de manipulação nos dedinhos. No caso, nos polegares.

É interessante essa analogia, pois é extremante característica dos seres humanos como espécie. Este é bípede, mamífero, mas que tem dois grandes diferenciais: um telencéfalo altamente desenvolvido e um polegar opositor (já assistiu o documentário “Ilha das Flores”, muito interessante e fala sobre isso, link abaixo). Realmente, a “cabeça” e o polegar é o que nos diferencia, isso caracteriza nossa espécie evoluída. Será? Será que somos mesmo evoluídos, desenvolvidos? Eis mais uma questão!

Enfim, nada como o uso do polegar opositor para esta nova geração, visto que as funções deste são – o movimento de pinça nos dedos e a capacidade de manipulação de precisão. E é sustentando os dispositivos com a surpreendente habilidade opositiva do polegar em relação aos outros dedos, e a manipulação precisa destes nas minúsculas teclinhas, que, eureca! Uma totalidade absoluta de conjeturas antes inacessível se descortina.
 

E como fica a figura e o papel do professor, antes tão magistral que para ouvi-lo e ter acesso ao saber que ele dominava, silenciava-se a vozes, os corpos paralisava-se, o tempo e o espaço era preenchido por este ser quase soberano. Agora, a mente - talvez o coração - e o corpo tem outro objeto de atenção, o tempo e espaço é caraterizado pela virtualidade, a informação pela acessibilidade. Cabe então a este profissional ressignificar a sua prática, tornando-a participativa, dinâmica e contextualizada com as transformações e demandas contemporâneas.

Este não deixou de ser necessário, mas tem agora uma posição diferenciada da que teve em séculos passados. É um ser-com no processo educativo = com as tecnologias digitais (em especial as mídias locativas) que estão presentes no contexto educacional; com esta geração que agora não é mais ouvinte, mas participante; com o saber que está em profusão; com a escola que se reinventa para interagir com as mudanças, que já se efetivaram no meio social.

Mas agora deixa eu colocar a cabeça debaixo do braço (de acordo com a história de São Denis, citada pelo autor. Conhece São Denis – Saint-Denis? Não?! Google em ação!!! Com o uso do polegar, mais 5’ de paciência se a banda for mesmo larga e pronto, logo estará especialista na história deste santo), e transportá-la para outro contexto, mas que é, ao mesmo tempo, muito semelhante.

Sim, esta foi outra grande surpresa para mim neste livrinho, estar em sintonia - por incrível que pareça! - com o tema do artigo final que estamos escrevendo (eu e uma colega de turma) para a matéria, sobre o uso das mídias locativas no contexto da educação. Que feliz coincidência! Tornou-se, assim, ainda mais significativo para mim. Vou então usar as minhas ricas habilidades cognitivas e táteis, proporcionadas pelo meu telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor, para continuar a escrever e pensar sobre esse tema.

Continuaremos em sintonia, em digitações e em postagens. Com carinho, Cássia.
 

 O que nos caracterizava como mamíferos superiores era o telencéfalo desenvolvido (inteligência/cognição), e o polegar opositor (destreza/manipulação), agora que cães tem uma inteligência nas mãos (smartphone)



e gatos estão treinando a habilidade de destreza, realmente um próxima evolução nos espera? Canis Catus Sapiens! Cássia.

 

Link para o documentário “Ilha das Flores”- Jorge Furtado. http://www.youtube.com/watch?v=WO8d1vnDOwA.

 Referência no comentário 1.

domingo, 26 de janeiro de 2014

BRASIL: Marco Civil da Internet parte 100

Sempre ouvi uma frase no Brasil quando se tratava de escândalos de corrupção ou problemas de cunho político – Não adianta! Aqui tudo via acabar em pizza. Não concordo com esta frase, gosto muito de pizza, acho divertido sair com os amigos para comer e considero que acabar em pizza é acabar bem.
 
Então no Brasil, que é dos países mais noveleiros do mundo, sempre acreditei que tudo aqui vira novela. As coisas acontecem assim: um enredo longo e repetitivo, com cenas e conteúdos que parecem feitas para pessoas com retardo mental (ai, ai, ai, acho que subestimei demais esse grupo de sujeitos!), pela falta de sentido e coerência, para terminar um final medíocre, que dá um total arrependimento do tempo perdido para ver tanta inutilidade.

Enfim, na política é bem assim – que o diga a novela do mensalão, já não aguento mais tantas cenas dos próximos capítulos. O mesmo tem ocorrido com a novela do marco civil da internet no Brasil. Não é realmente um assunto que esteja acompanhando, mas não precisa ser especialista para ver a relutância e prolongamento nesta discussão. Agora que fiz um levantamento sobre o tema posso confirmar isso.

O Marco Civil da Internet é uma inciativa brasileira que pretende regulamentar os princípios para uso da rede, corroborando a ideia de Internet livre e aberta, mas com regras de proteção ao usuário da mesma. Esta ação é uma das primeiras neste sentido no mundo. Ratifica-se até que o Brasil ocupa uma posição de destaque, por protagonizar esta discussão e iniciativa legal.

Após ler sobre isso (Texto GGI e o Marco Civil da Internet – link abaixo) não nego que fiquei um pouco apreensiva, sabe por quê? São anos e anos de vida em que quase tudo de inovação que é dito como importante, necessário ou interessante, é sempre uma resposta ao “primeiro mundinho” e seus organismos internacionais. A educação está comercializável porque o Banco Mundial, com sua política neoliberal, acha que deve ser assim no “terceiro mundinho”. Outra coisa, praticamente copiamos tudo dos EUA, porque eles são a potência e nós (ou quase o resto do mundo) estamos abaixo consumindo suas ordens. Até a FIFA tem um padrão a ser seguido rigorosamente pelos súditos bestificados, que terão o privilégio “de pagar” (e muito caro por sinal!) por uma copa. Enfim, desde que nasci sempre foi assim!

Então, agora que ter um marco civil para internet parece uma ideia interessante, começo a mim questionar, porque os países ditos desenvolvidos nunca pesaram nisso? Existem algumas ações neste sentido, mas não com um alcance tão amplo como o Marco Civil pensado aqui. Por exemplo, nos EUA existe o Stop Online Piracy Act (Lei de Combate à Pirataria Online), uma lei bem distinta do que discutimos sobre Commons, já que procura regulamentar mais severamente os direitos autorais na internet – corroborando o Copyright. Tem também a PROTECT IP Act (Lei de proteção a roubos e privacidade intelectual), que tem como objetivo proteger os sites também contra pirataria. Como ideia embrionária mais ousada e abrangente existe a do Free Internet Act (Lei da Internet Livre), que seria um projeto internacional de regulamentação de uso da internet em todo o mundo.

Como ficou claro a maioria das propostas estão relacionadas a proteção de conteúdos autorias e combate a pirataria. O Marco Civil da Internet no Brasil não é limitado neste sentido, ele abrange o uso de maneira geral, e tem uma série de aspectos a serem regulamentados, os três destacados são: a garantia primordial da privacidade, a neutralidade da rede, a inimputabilidade da rede[1] (este designa que os crimes cometidos através da internet devem levar a culpabilização dos responsáveis finais e não os que ofereceram os serviços conectivos na rede).

Com base nestes três aspectos e lendo os artigos que compõem o Marco Civil, não concordei com boa parte deles e comecei a questionar:
Primeiro – como garantir a privacidade se, de acordo com o texto, os dados das pessoas serão armazenados pelas prestadoras de serviços conectivos? Quem fará esse acompanhamento?
 
Segundo – como garantir a neutralidade desejada ao tratar de forma isonômica (igualitária) tudo o que for colocado na net? Pensei logo que se muita coisa já não presta, partindo do princípio de nivelar por baixo (ou pelo todo – dado status de igualdade) ai é que ficará muito pior.
 
Terceiro – como garantir a inimputabilidade dos prestadores de serviços conectivos, delegando apenas ao usuário que postou o ônus pelo delito? Caso este não seja achado, porque neste momento se recorreria logo ao princípio “sagrado” da privacidade, ficariam então todos impunes. Claro que os prestadores de serviços conectivos (qualquer que seja) devem sim ter atenção a forma como estão sendo usados estes mecanismos e também serem responsabilizados por atos que venham a ocorrer e que poderia ter sido evitados, caso seja provado que houve negligência na conduta de cuidado daquilo que se predispuseram (e ganham muito bem para isso!) administrar.
 

Enfim, não concordo com o que li, se está assim colocado não está satisfatório, realmente é uma discussão a continuar, e espero que esta novela tenha muito mais capítulos, pois se é para regulamentar que seja feito da melhor forma. Essa conclusão final não nego que me decepcionou, gostaria muito de dizer que saímos na frente de algo que realmente vale a pena – é importante, necessário e interessante, mas pelo que li ainda não é assim. Como sei que esta discussão ainda não tem data para acabar, temos duas possibilidades - ou melhorar ou piorar. Isso no Brasil vai depender do lobbys, e haja interesses nesta área! Com carinho, Cássia.

Sobre a novela do Marco Civil da internet.
Não quero que esse final seja cômico,
também espero que não seja trágico,
pois no Brasil eu sei que a bomba fica sempre
como "presentinho", para os menos favorecidos e
esclarecidos. Cássia.



[1] Inimputabilidade – termo jurídico que designa a impossibilidade de assumir uma culpa, termo muito usado no campo da saúde mental, ao ser julgados crimes de sujeitos com problemas mentais graves.

CGI e o Marco Civil da Internet.
http://www.cgi.br/publicacoes/documentacao/CGI-e-o-Marco-Civil.pdf

domingo, 19 de janeiro de 2014

O movimento dos sem tela!

Gosto de movimentação, de dinâmica, de atividade social, como era o tema da semana falar sobre inclusão digital, resolvi voltar ao movimento que tinha iniciado três anos atrás – o dos Sem Tela.

Tudo bem, brincadeira à parte! Mas não consigo mais compreender tantas lutas em favor da inclusão. às vezes me parece que é politicamente correto (pelo menos para o sistema político corrompido em vigor) criar guetos de exclusão, para depois criar políticas inclusivas. Isso dá ibope, isso dá voto, consequentemente, isso dá dinheiro!!! Ah, sim. Agora entendi!!! É um ciclo vicioso, ou talvez um redemoinho. Sempre haverá novas possibilidades de exclusão, que serão sanadas pelos salvadores dos excluídos com suas políticas inclusivas de plantão.
 
Exclusão social, exclusão dos deficientes, exclusão escolar, exclusão da terra, exclusão do trabalho, exclusão digital. Mas será que é isso mesmo? Ai vem uma série de movimentos/políticas de inclusão dos deficientes, inclusão escolar, reforma agrária, inclusão dos indígenas, dos afrodescendentes, inclusão digital.
 
Que ironia! Estudei tanto e acabei ficando burrinha. Inocentemente achava que INCLUSÃO SOCIAL englobaria tudo. Sim, achava que se houvesse realmente uma política de direitos iguais e equidade, não havia necessidade de tantas políticas estanques, que procuram incluir por partes, sem estar socialmente inserido no todo.
 
Nos textos indicados para a reflexão desta semana (referências abaixo) encontrei conteúdos interessantes para serem pensados, sobre o que este sistema gera na nossa sociedade, descritos mais ou menos assim: uma massa subordinada e alienada, imprescindível para manutenção do sistema... exclusão faz parte das estratégias do capitalismo...
 
De acordo com esta ideia, de que a sociedade produz a exclusão para gerar a inclusão, é que entra a discussão sobre a inclusão digital. Para isso lá se vão um amontoado de políticas - Proinfo (Programa Nacional de Informática na Educação), UCA (Um computador por aluno), muitas outras.
 
Upa, um momentinho!!! Mais uma vez estou aquém destes cérebros desenvolvidamente politizados. Pensei que se fosse para fazer programa de inclusão, ele deveria ser socialmente amplo (abrangendo o todo da vida da pessoa). Porém, as políticas mais uma vez são estanques - é a inclusão digital na escola, ou melhor, é o computador na escola, que às vezes nem pode ser ligado, por não ter sistema, não ter rede. Estes por vezes não fazem sequer parte do processo educacional, não leva a interação, a constituição da cidadania, a compreensão dos direitos, a criação de opinião.
 
O computador se torna até um “presentinho”, do político “bonzinho”, claro que para agradecer nada melhor que um “votinho”, afinal não custa nada!
 
Em nenhum momento se reflete também que educação não é só na escola, bem como o social é um horizonte muito mais além - é escola, é família, é lazer, é trabalho.... Mesmo porque se inclui só em parte, continuará a haver exclusão de algumas outras partes. Se é para ter inclusão digital, que seja no todo da vida do sujeito, pelo menos isso!!!
 
Realmente, retorno ao ponto de partida, construamos uma sociedade igualitária, como garante a constituição – com direitos de todos, então políticas parciais de inclusão serão desnecessárias. Na verdade para mim a luta é pela cidadania, igualdade, equidade, comunidade!


É preciso ter cuidado, para não achar que apenas com um movimento (um click com a ponta dos dedos), pode se fazer um processo de inclusão digital. Com ações tão estanques é mais fácil  gerar uma massa de excluídos, no meio da multidão digitalizada. Cássia.
 
Referências nos comentários.
 

domingo, 12 de janeiro de 2014

Creative Commons or Public Domain? What’s the difference?

In this week two texts were offered for my perusal. But is important highlight that either presents the same content, with different writing.

Comecei o texto em inglês, e na verdade queria escrevê-lo todo em outro idioma, por duas razões assim descritas:
 - Primeiro por que ambos apresentam termos que são expressões de línguas estrangeiras – commons e rossio. Commons, como a escrita claramente já denota, significa comum. Rossio, como não fica claro, em Portugal – lugar de encontro em comum (mas em português no Brasil quer dizer – orvalho, umedecer, borrifar).
- Segundo por que ambos tratam de abertura do uso de conteúdos nas redes digitais, mas não conseguem ser claros na sua especificação (como viabilizar esta alternativa; ou em havendo regras, como seriam organizadas, etc.), e quando não se fala exatamente o que se quer dizer é como se falasse em outra língua.

O primeiro texto trata do rossio não-rival (tanto elucubração e ortodoxia para falar de coisas de entendimento tão simples). Se remete a possibilidade de uso comum e simultâneo por mais de uma pessoa de determinado bem. Isso se expressa de maneira plena no uso da internet, pois estando um conteúdo digitalizado e disseminado na rede, torna-se comum, coletivo, simultâneo, pode ser acessado, utilizado e revisitado infinitas vezes. Isso vai de um texto, um software, a um infinito de possibilidades.

O segundo trata do commons (em geral e na rede digital) com referencial político, fazendo alusão ao mercado - em sentido econômico privado e em sentido coletivo. No primeiro haverá regras de propriedade com restrições específicas, no segundo, mesmo não sendo o caos no uso de bens, quando apresentam restrições são diferentes das regras de propriedade privada. É uma forma de liberdade vigiada, que aumenta ou diminui a depender de como são estruturadas. Uma propriedade coletiva, com possiblidade de uso comunitário e equitativo que se desarrolha de acordo com as disposições de recursos e controle de uso coletivo.

Lembra muito a perspectiva do comunismo, tudo é de todos! Mas nunca é assim, no final sempre alguém fica com a melhor parte. Mesmo porque, se haveria regras (por poucas que fossem) quem ditar as restrições com certeza terá maior parcela de controle. Também no texto não fica claro como seriam organizadas e por quem, estas regras que impediriam a anarquia. 

No âmbito da escrita na internet a forma mais comum é o creative commons, que seria uma versão diferenciada do copyright, na qual há uma liberdade de uso de conteúdos na rede, mas limitada por regras, que serão impostas e seguirão a lógica de quem governa o uso ou disposição dos recursos (autores, editores ....??!!!), e de acordo com interesses de quem as determina. Então, mesmo que não sejam as mercado, haverá regras específicas e diferenciadas a partir de interesses de terceiros.

Por isso, em se tratando de liberdade na rede, me reporto logo ao domínio publico (public domain), que seria realmente uma contraposição ao sistema. E qual seria a diferença? No domínio público realmente se consolida o livre acesso (há a plena disposição autoral, editorial etc.). O que cai na rede torna-se de domínio público, podendo ser utilizado por todos, sem culpa de estar infringindo algum código, pois já teria a certeza que realmente há a liberdade de uso, compartilhamento, interação e integração.

Para mim isso é falar claro! Como e para que criar regras que na maioria das vezes não serão cumpridas? Melhor consentir a liberdade e não fazer de conta que esta existe, mas é tolhida por restrições específicas, sempre que possível ou desejado.

Com relação aos programas e software, se e é para ter plena acessibilidade, vamos direto ao open source (códigos abertos). Isso já ocorre com o linux e com certeza no futuro muitos outros mais seguirão esta vertente. 

Mas a pergunta que não que calar é: como o sistema vai se sustentar? Resposta simples de uma leiga plus no assunto tecnologia - o mercado é mutante e sempre acha formas de oxigenar o seu potencial de gerar renda (o bilionário Facebook que o diga!!!). Com certeza estes meios não irão faltar, e o maior filão ainda é a propaganda. A maioria dos sites livres (de filmes, músicas, entretenimento e outros) sustenta os custos dos direitos de terceiros com os recursos das propagandas, o mesmo que sempre fez a televisão, que acabou se tornando uma mídia global. Assistimos em tese de graça, mas entre uma cena e outra, entra um pagante que financia a pseuda gratuidade do sistema. Meio de sustentação financeiro politicamente correto, que já faz parte também do ambiente da internet. Com carinho, Cássia.
 

Sem dúvida, em comparação com qualquer outro meio de mídia, as redes digitais tem o toque de Midas - o que toca vira ouro! Basta saber como manipular. E assim os meros mortais vivenciam a plena liberdade de usufruir de qualquer conteúdo da rede, sem restrições ou direitos autorais de uso que limitem o acesso. Um toque de gênio! Cássia.

 
 
Referências no comentário 1.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Do teclado ao ecrã: expressão do letramento digital

É inegável que as tecnologias modernas alteram a vida das pessoas, interferindo nas práticas sociais, inclusive nos seus hábitos de leitura e de escrita. Ao se efetivar na sociedade o uso dos novos recursos tecnológicos, foi se tornando eminente também novos aprendizados, dentre estes o letramento digital.

Letramento é visto como uma prática social. Diferente da alfabetização, que é algo formalmente constituído, o letramento tem o seu desenvolvimento a partir da relação do sujeito com o seu meio sócio-cultural. A capacidade de se discutir sobre as transformações provocadas pela cultura letrada (que domina a leitura e a escrita) em determinado contexto. Seria uma meta-análise!

O letramento é considerado um “conjunto de práticas sociais que usam a escrita, como sistema simbólico e como tecnologia, em contextos específicos, para objetivos específicos” (SOARES, 2002, p. 02).

Com essa ambientação digital novos signos e tipos de práticas foram incorporadas, para transitar neste meio compreendendo e se fazendo compreender, é preciso entender como se expressa estes sistemas simbólicos no contexto da mediação computacional. O letramento digital perpassa pela abrangência de possibilidades entendimentos antes não vislumbradas.

Um exemplo para entender isso é analisar algo que envolve tanto a leitura quando a escrita - o texto  no contexto digital! O texto antes era limitado por fatores físicos, financeiros e de tempo, agora se expande para uma narrativa - integralizada, discursiva, compartilhada, que se estende não apenas no tamanho, mas para além do tempo e do espaço. Não é uma escrita que se dá da caneta esferográfica para o papel sulfite (isso já pensado analógico. Quanta tecnologia!!! Em tempos idos isto foi mais rústico ainda – da pena para o pergaminho, por exemplo). No âmbito digital isso se dá do teclado para a tela do computador. Uma agilidade sem sim, uma possiblidade de manipulação sem igual, um exercício de criatividade ímpar.

Então a análise muda. Evidencia-se que a prática de leitura e escrita faz parte do processo de interação humana. Mas como fica essa interação, que tem como recurso para esta prática a mediação digital, algo que ao tempo que traz tantas possibilidades é também tão efêmero? Sem dúvida pelo trabalho que dava escrever em papiro, havia a necessidade de preservar, mas no digital o backspace e o delete, em um texto selecionado, pode agir muito mais rápido, do que as mãos que detenham a mais extrema habilidade de digitação.

Como diz Bauman, mais uma vez analisado letramento digital, se percebe a presença do efêmero, do substituível, trazendo consigo todas as implicações pessoais e sociais que isso acarreta. Mas achei interessante discutir essa temática, através do texto de Soares, que ressalta que esse poder de transformação do cotidiano, incorporado pela cultura digital e que levou a necessidade de desenvolver novos conceitos de letramentos, não determina, mas condiciona os hábitos. Isso é interessante, pois o determinismo fechar as portas aos possíveis câmbios, mas o condicionamento pode ser alterado. Basta que novas possibilidades de transformação sejam vislumbradas no horizonte.

Com certeza, que o devir cada mais presente do novo tecnológico, teremos muitos outros novos conceitos a discutir em um futuro próximo. Com carinho, Cássia.

 


Não é simples viver em um mundo
tecnológico, em constante mudança.
Mas é gratificante saber que temos potencial para aprender, e criar recursos de adequação para lidar com estas transformações. Cássia.

 



Referência nos comentários.